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Relação de jovem morta em Maria Farinha era marcada por abusos

Jovem foi sepultada na tarde desta quarta-feira no Cemitério de Santo Amaro Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem

Um relacionamento abusivo, marcado por violências físicas e psicológicas, ameaças, ciúmes e um sentimento de posse que provocou medo e distanciamento da família. Foi assim que parentes e amigos de Raíssa Sotero Rezende, 14 anos, descreveram a relação amorosa que a adolescente viveu com a jovem de 15 anos, acusada de torturar e matar a ex-namorada. O crime teve a participação de outra garota também de 15 anos.





As duas agressoras filmaram as cenas cruéis de violência contra Raíssa e espalharam as imagens nas redes sociais. O assassinato, ocorrido na praia de Maria Farinha, em Paulista, no Grande Recife, foi o desfecho trágico de um relacionamento que durou cerca de um ano e meio. As duas estavam separadas, mas o fim da relação não interrompeu o assédio e as tentativas de reconciliação por parte da acusada.

Por conta do relacionamento, Raíssa mudou de comportamento, deixou de lado os estudos e se afastou da família. No ano passado, passou 20 dias desaparecida, em companhia da acusada. Os pais chegaram a procurar a Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente (GPCA). Também recorreram à ajuda do Conselho Tutelar. As duas se conheceram na escola.





Os amigos de Raíssa disseram que a acusada tinha um ciúme doentio e um comportamento possessivo. “Ela mandava ameaças pelo whatsapp. Mesmo depois que as duas terminaram, ela continuou cercando, ameaçando. Nós demos muitos conselhos para que Raíssa se afastasse, mas ela não conseguia ver o quanto o relacionamento estava lhe fazendo mal”, contou uma amiga da vítima, de 13 anos.

Nesta quarta-feira (27), no velório da adolescente, no Cemitério de Santo Amaro, região central do Recife, o pai de Raíssa, que pediu para não ser identificado, chamou a atenção dos pais para o envolvimento dos filhos em relacionamentos destrutivos. “É preciso estar sempre atento. Fizemos tudo o que era possível para que ela se afastasse dessa garota. Não por ser outra menina. Mas pelo comportamento dela. A acusada tem um histórico de agressão, assaltos, uso de drogas. Eu interferi muito. Mesmo assim havia a insistência, a pressão psicológica dela em cima da minha filha”, disse o profissional autônomo.





FIM DA RELAÇÃO E MEDO

Há cerca de dois meses, Raíssa finalmente havia conseguido pôr um fim na relação. Mas continuava com medo da ex-namorada. Tanto que estava evitando ir na casa do pai, por ele morar próximo à residência da família da acusada. Também mudou de escola, para se afastar do antigo relacionamento. Desesperado e chorando muito, o atual namorado da adolescente disse que falou com Raíssa, pela última vez, na manhã em que ela foi assassinada, na última terça-feira.





“Ela estava com meu celular. Falei com ela após as 10h. Depois, ela não respondeu mais. Acredito que filmaram a morte dela com o meu celular”, contou o rapaz de 23 anos, que também terá a identidade preservada. O namorado confirmou que o antigo relacionamento da jovem era conturbado. Segundo ele, Raíssa já havia sido agredida pela suspeita, quando as duas namoravam. “Ela tinha medo da menina porque ela batia nela com faca. Tinha várias cicatrizes na perna”, contou.

Em uma cadeira de rodas e muito abalada, a mãe da jovem precisou de atendimento médico, enquanto aguardava a liberação do corpo da filha no Instituto de Medicina Legal. Sob efeitos de medicamentos, mal conseguiu falar com a imprensa. “Eu quero justiça. O que fizeram com a minha filha foi uma crueldade. Ela não merecia isso”, declarou.





O delegado que investiga o caso, Álvaro Muniz, disse que as duas adolescentes acusadas já tinham passagem pela Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase), por envolvimento em assaltos e até tentativa de homicídio. Ele informou que, pelas declarações iniciais recebidas pela polícia, Raíssa e a ex-namorada teriam se encontrado na praia, quando foram flagradas pela outra garota, que estava tendo um relacionamento com a acusada.

“Ainda não sabemos como se deu esse encontro. E nem se outras pessoas estão envolvidas. Vamos também ouvir o depoimentos dos familiares para saber como era o relacionamento entre a vítima e a ex-namorada”, afirmou o delegado. Segundo ele, se for confirmado que o relacionamento das duas era abusivo e havia ameaças, para evitar a separação, a qualificadora do feminicídio pode ser incluída no indiciamento das duas adolescentes. Elas foram apreendidas logo após o crime e estão internadas na Funase.





O corpo de Raíssa foi enterrado ontem, por volta das 14h. Instantes antes do sepultamento, o pai colocou uma pequena foto da filha em cima do caixão. A jovem foi muito aplaudida e os amigos gritaram, em vários momentos, pedindo “justiça”.

Fonte: Jconline

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